O que é preciso para abrir uma empresa de Home Care?

por Max Artur - Publicado em: 11/05/2019


Esse artigo é destinado àqueles que estejam pensando em abrir o seu próprio Home Care mas não sabem por onde começar ou que simplesmente têm alguma curiosidade sobre o assunto. Obviamente não há como esgotar o assunto em poucas linhas, porém tentaremos resumir de modo objetivo as principais atividades desse tipo de empresa.


O termo Home Care pode, às vezes, se referir a serviços que fornecem apenas “cuidadores” para o Atendimento Domiciliar, porém nesse artigo abordaremos sobre o funcionamento de uma empresa de Home Care em seu sentido mais amplo, ou seja, uma empresa que tenha um sistema próprio de fornecimento de materiais, medicamentos e equipamentos, fornecimento de diversos profissionais relacionados a um atendimento multiprofissional (médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas, fonoaudiólogos, técnicos de enfermagem, terapeutas ocupacionais, psicólogos, dentre outros), credenciamento vigente nas diversas Operadoras da região de atendimento, serviço de faturamento, remoção e plantões de sobreaviso.


1. CREDENCIAMENTO OU ATENDIMENTO PARTICULAR?

Antes de mais nada, é necessário saber se na região ainda existem credenciamentos ativos. Se você deseja atender apenas pacientes particulares não há porque se preocupar com credenciamentos. Contudo, sabemos que no atendimento particular, o risco de não receber suas faturas é mais elevado, visto que alguns pacientes podem custar até R$ 24.000,00 ou mais por mês. Hoje, pelo menos em Brasília-DF, praticamente todas as Operadoras estão fechadas para novos credenciamentos, o que pode fazer com que sua empresa fique parada por meses, ou até por anos, aguardando a abertura de novos editais. Além disso, mesmo se a sua intenção for atender apenas pacientes particulares, faça uma projeção sobre a demanda pelo serviço e risco de prejuízos financeiros, como já mencionado.


2. PROFISSIONAIS NECESSÁRIOS

Para uma empresa de Home Care funcionar adequadamente é necessária uma quantidade mínima de funcionários. São eles:

2.1 - Médico Coordenador(s) (realizar visitas domiciliares, ajustar prescrições, ficar de sobreaviso, realizar atendimentos extras conforme a necessidade, responder judicialmente perante o Conselho de sua Classe – Responsável Técnico Médico). Salário médio mensal: R$ 20.000,00.

2.2 - Médico Visitador (realizar visitas domiciliares, ajustar prescrições, ficar de sobreaviso, realizar atendimentos extras conforme a necessidade). Salário médio por visita: R$ 200,00 a R$ 250,00.

2.3 - Enfermeiro Coordenador (coordenar um núcleo de atendimento, realizar visitas domiciliares, ajustar prescrições, ficar de sobreaviso, realizar atendimentos extras conforme a necessidade, responder judicialmente perante o Conselho de sua Classe – Responsável Técnico de Enfermagem). Salário médio mensal: R$ 3.000,00 a R$ 5.000,00.

2.3 - Enfermeiro Visitador (realizar visitas domiciliares, ajustar prescrições, ficar de sobreaviso, realizar atendimentos extras conforme a necessidade). Salário médio por visita: R$ 100,00.

2.4 - Farmacêutico (adquirir e controlar medicamentos de controle especial, antimicrobianos e outros, manter em dia os livros de medicamentos controlados, solicitar a montagem dos kits de MATMED (Materiais e Medicamentos), responder judicialmente perante o Conselho de sua Classe – Responsável Técnico Farmacêutico). Salário médio mensal (R$ 4.000,00 a R$ 6.000,00).

2.5 - Auxiliar de farmácia (montar os kits de MATMED solicitados pelo farmacêutico). Salário médio mensal: 1 a 2 salários mínimos + 13°.

2.6 - Contador (calcular as obrigações fiscais da empresa, controlar o pagamento de tributos, calcular emissão e recepção de notas fiscais, dentre outros). Salário médio mensal: 1 salário mínimo + 13°.

2.7 - Faturista (auditar e faturar mensalmente os pacientes, conforme as regras de faturamento exigidas pelas operadoras). Salário médio mensal: a depender da empresa. Em geral é cerca de R$ 2.500,00.

2.8 - Entregador de materiais e medicamentos (realizar a entrega de MATMED, recolher produtos conforme a sua classificação). Salário médio mensal: 1 a 2 salários mínimos + 13°.

2.9 - Auxiliar de núcleo (agendar implantação de equipamentos, remoções, realização de exames laboratoriais e de imagem, controlar prontuários, impressos). Salário médio mensal: 1 a 2 salários mínimos + 13°.


2.10 - OUTROS PROFISSIONAIS DA EQUIPE MULTIDISCIPLINAR (SERVIÇOS TERCEIRIZADOS):

2.10.1 - Técnicos de enfermagem (realizar diariamente os cuidados nos pacientes). Salário médio mensal: muito variável, pois depende da complexidade do paciente. Em média a empresa de Home Care gasta mensalmente, apenas com Técnicos de Enfermagem, um valor entre R$ 3.000,00 a 9.000,00 por cada paciente, pago diretamente às Cooperativas de Enfermagem que posteriormente repassarão aos profissionais.

2.10.2 - Fisioterapeutas, Fonoaudiólogos, Nutricionistas, Psicólogos, Terapeutas Ocupacionais, dentre outros. O gasto mensal com esses profissionais também é muito variável pois depende da complexidade do paciente. A empresa gasta com a equipe algo em torno de R$ 1.500,00 a R$ 3000,00 mensais por cada paciente.


3. SISTEMA DE GERENCIAMENTO

Uma empresa de Home Care não funciona sem um sistema próprio para gerenciamento. As evoluções, prescrições, aditivos, orçamentos, prorrogações, pedidos para farmácia, controle de estoque, Check Lists de entregas, controle de preços, de fornecedores, rastreio de itens que saíram da farmácia, controle de medicamentos especiais, uso de código de barras, tudo isso só pode ser realizado com um sistema específico para gerenciamento de Home Care. Temos atualmente poucas opções no Mercado. Dentre as mais conhecidas temos o IW (pouco amigável, muito caro e muito complexo), o Syscare (caro, trava muito, assistência ruim) e o EasyHome (esse último é atualmente o sistema da Prisma Home Care, rápido, não trava, extremamente leve e simples de manusear, amigável e que possui a tecnologia mais atualizada do mercado da TI, pois foi desenvolvido na linguagem JavaFX com banco de dados PostgreSQL).

Não há como emitir o XML e as Guias de Faturamento sem um sistema desses, que mensalmente custam à empresa algo entre R$ 2.000,00 a R$ 3.000,00 (média), chegando até a R$ 6.500,00 conforme o montante do faturamento.


4. ESTRUTURA FÍSICA

Montar a estrutura física de um Home Care em si não é caro. Pelo contrário, é a menor de todas das despesas! A estrutura física deve possuir:

4.1 - Uma sala ou espaço para mesas, cadeiras, armários e computadores. Após definida a quantidade de funcionários internos, conforme mencionado no item 2, deverão ser adquiridos os locais e áreas de trabalho de cada um.

4.2 - Uma mesa grande para reuniões e auditorias (facilita muito o trabalho, sendo praticamente essencial).

4.3 - Para a farmácia serão necessárias estantes de aço ou prateleiras para o acondicionamento de medicamentos e produtos perecíveis. Um freezer ou geladeira para conservação de alguns produtos que necessitam ser mantidos em baixa temperatura. Ainda para a farmácia são necessários armários com chave para guarda de medicamentos de controle especial e outros, conforme previsto na legislação. Termômetros, ar condicionado, paredes e pisos próprios também são obrigatórios. Computador com sensor de código de barras para saída de produtos.

4.4 - Local para coleta e armazenamento de Lixo Hospitalar.

4.5 - Estoque para armazenamento de materiais e equipamentos não perecíveis (ex: fraldas, frascos, bombas de infusão, nebulizadores, aspiradores, etc).


Custo médio da estrutura sem o aluguel:

- Escritório: acreditamos que R$ 10.000,00 a R$ 30.000,00 sejam suficientes para a estruturação física mencionada acima, visto que serão gastos apenas mobiliário de escritório, computadores e itens de almoxarifado.

- Farmácia: para um estoque inicial de materiais, medicamentos, equipamentos e dietas será necessário algo em torno de R$ 40.000,00 a R$ 60.000,00 (obs: as dietas, fraldas, antimicrobianos, cânulas de traqueostomia e equipos para bomba de infusão, mesmo quando consignados, têm preço elevado e seu uso é diário).

- Taxa de aluguel, energia, água, telefone, internet, gás, combustível: não iremos abordar pois são valores muito variados!


5. ASSINATURA DAS REVISTAS PARA PRECIFICAÇÃO DE MATERIAIS E MEDICAMENTOS

Muitas operadoras tabelam os preços em pacotes, enquanto outras utilizam revistas (Ex: Brasíndice) como referência e codificação dos preços que serão discriminados nos faturamentos. As assinaturas dessas revistas têm um custo relativamente elevado e são obrigatórias para o credenciamento em algumas Operadoras. Custo aproximado: R$ 1.500,00 ao ano.

Exemplo de revistas: SIMPRO | Brasíndice


6. LEGALIZAÇÃO PARA FUNCIONAMENTO

Com a equipe já definida e a estrutura montada, é hora de obter as licenças para funcionamento. São elas:

6.1 - “Alvará” da Vigilância Sanitária e o Termo de Responsabilidade Técnica

6.2 - Autorização do Corpo de Bombeiros

6.3 - CNES

6.4 - Inscrição municipal, estadual ou CF/DF

6.5 - AGEFIS

6.6 - SICAF

6.7 - Autorização emitida pelos CONSELHOS DE CLASSE (incluindo o Termo De Responsabilidade Técnica)

Custo: A regularização perante os CONSELHOS DE MEDICINA, ENFERMAGEM E FARMÁCIA são os mais caros. Prepare aí um custo de mais de R$ 6.000,00 para cadastro e regularização. Anualmente será necessário revalidar a licença para Responsável Técnico e PJ em todos eles!


7. CONTRATOS COM OUTROS SERVIÇOS

6.1 - FORNECIMENTO DE INSUMOS: O Home Care deve possuir uma ampla rede de fornecedores, visto que a entrada e saída de produtos é muito alta. O gestor deve ter muito cuidado para que não faltem itens no estoque, principalmente os de urgência/emergência. Atualmente, os fornecedores não cadastram empresas sem o “Alvará” da Vigilância Sanitária e o Termo de Responsabilidade Técnica em dia.

6.2 - LABORATÓRIOS DE ANÁLISES CLÍNICAS

6.3 - SERVIÇOS DE REMOÇÃO (UTI MÓVEL)

6.4 - EXAMES DE IMAGEM

6.5 - FORNECIMENTO DE EQUIPAMENTOS

6.6 - COOPERATIVAS DE ENFERMAGEM E OUTROS PROFISSIONAIS

6.7 - COLETA DE LIXO HOSPITALAR

6.8 - OUTRAS EMPRESAS DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS

Escolha empresas já com nome consolidado no mercado para evitar problemas com as famílias dos pacientes e até mesmo possível descredenciamento junto às operadoras por falhas no atendimento.


8. PRINCIPAIS DIFICULDADES ENFRENTADAS

É sabido que a maioria das empresas de Home Care prestam atendimentos às Operadoras de Saúde, existindo aí suas vantagens e desvantagens:


Vantagens:

- Redução do risco de “calotes”.


Desvantagens:

- Não existe um padrão de funcionamento entre as operadoras. Cada uma exige um modo diferente de faturamento, prorrogação, orçamento, auditoria. Cabe à empresa de Home Care se adequar a cada uma delas.


- Algumas operadoras demoram até 8 meses para pagar (a média é entre 4 e 5 meses)! Desse modo, a empresa deverá possuir um capital de giro suficiente para custear tanto os 8 meses de atendimento dos pacientes quanto para sua própria manutenção (pagamento de salários do profissionais, aluguel, gasolina, etc), visto que as cooperativas de enfermagem, bem como todos os outros fornecedores não esperam para receber e não estão muito dispostos a discutir prazo. Uma conta rápida: um paciente que custa R$ 10.000,00 para empresa obriga a empresa a ter em caixa no mínimo R$ 80.000,00 apenas para custeá-lo até o recebimento da primeira parcela. Isso para 1 (um) único paciente! Entretanto, será necessário, ainda, mais uma quantia em caixa para pagamento de outros profissionais não custeados pelas operadoras (médico coordenador, farmacêutico, contador, aluguel, custo do sistema de gerenciamento, etc). Algumas empresas pagam em 04 a 05 meses, porém o tempo ainda é muito grande se formos pensar no montante necessário quando estamos falando de vários pacientes.


- As operadoras trabalham com regime de “licitação”, ou seja, quando um paciente com plano de saúde X tem indicação de Home Care, a Operadora desse plano X solicita um orçamento a 3 empresas de Home Care a ela credenciadas. A empresa que enviar o menor preço vence a licitação e ganha o paciente. Desse modo, com a grande concorrência, o lucro líquido das empresas vem diminuindo a cada dia. Atualmente, as pequenas empresas necessitam chegar ao seu limite de faturamento para conseguir obter um paciente. O lucro vem reduzindo drasticamente e o prazo para pagamento ainda é longo, o que já proporcionou muitas falências de empresas novas no mercado.


- A grosso modo, a licitação não leva em conta se sua empresa é a mais organizada, a mais humanizada, se possui os melhores profissionais do mercado, se possui o melhor slogan ou a melhor gestão! Em um processo licitatório ninguém pergunta o nome dos profissionais, se estes falam inglês, fizeram curso na Harvard ou de quantos Congressos participaram. A princípio, essas considerações são irrelevantes, visto que as outras licitantes possuem exatamente os mesmos direitos! Teoricamente a Operadora está preocupada apenas em quem vai cobrar menos! Sabemos que aqui é Brasil, mas vamos pensar que as regras contratuais sejam sempre respeitadas e deixemos as maracutaias políticas de lado! Esse artigo não irá comentar sobre as práticas ilícitas do mercado.


Outros assuntos, na maioria das vezes, serão resolvidos posteriormente, mas reforço que a taxa de mudança de uma empresa de Home Care para outra (ex: paciente descontente com a falta de humanização) é muito pequena se comparada à taxa de implantação. Praticamente há uma equivalência no atendimento entre todas as empresas, visto que todas se esforçam muito para isso, ou seja, atender as necessidades do paciente não é nada mais, nada menos, do que a obrigação do toda empresa de Home Care.


- Como já mencionado acima, é necessário que o gestor esteja extremamente atento aos custos mensais da empresa, visto que uma empresa de Home Care necessita pagar seus funcionários mensalmente. As operadoras pagam, por exemplo, médico visitador e enfermeiro visitador, sendo esse pagamento realizado através de “pacotes” ou “avulsos”, a depender do contrato. Todavia, não pagam diretamente médico coordenador, médico de sobreaviso, enfermeiro coordenador, enfermeiro de sobreaviso, entregador, farmacêutico, auxiliar de farmácia, auxiliar de núcleo, contador, sistema de gerenciamento, assinatura de revistas referenciadas, aluguel, água, energia, gás, internet, coleta de lixo hospitalar, manutenção da empresa (pinturas, consertos de equipamentos, etc), gasolina, dentre outros. As operadoras aplicam uma porcentagem de lucro baseando-se única e exclusivamente nas revistas ou em tabelas próprias, sendo esse o único lucro real obtido pela empresa de Home Care. Não há outro lucro, apenas esse!


Além disso, algumas empresas ainda precisam se submeter a práticas “estranhas” ao contrato para manterem-se credenciadas. Uma dessas práticas ilegais que vem ocorrendo é a solicitação de descontos nos preços das próprias revistas, ou seja, alteração de valores previamente já referenciados e devidamente estipulados em contrato e nos próprios editais de credenciamento. Essa solicitação de “quebra” de contrato acaba por “sufocar” algumas empresas pequenas, colocando-as em risco, tanto financeiramente quanto judicialmente.


- O gestor deverá ainda estar completamente atento aos impostos. Não bastasse a crescente redução dos lucros devido a concorrência cada vez maior e da solicitação de quebras contratuais por parte de algumas operadoras, soma-se ainda o imposto de 13,33% que incide sobre o valor da Nota Fiscal (LUCRO PRESUMIDO). O lucro bruto das pequenas empresas de Home Care, com muita dificuldade, atinge os 20% (mais comum) ou, na melhor das hipóteses e em situações extremamente raras, chegam aos 30%. Porém, na emissão da Nota Fiscal, serão descontados 13,33% referentes aos impostos IRPJ, ISS, PIS, COFINS, CSLL, sendo que destes, 7,85% já são retidos logo na fonte. No regime de tributação pelo SIMPLES NACIONAL (devido ao fator R) ou LUCRO REAL o imposto é muito maior, chegando a aproximadamente 2% acima do LUCRO PRESUMIDO.




Conclusão: Analise muito atentamente tudo o que foi exposto acima antes de prosseguir com seu projeto de abrir um Home Care. Um projeto de Home Care só dará certo caso o empresário tenha uma quantia considerável à disposição. Vale ressaltar ainda que, mesmo uma grande quantia, algo em torno de R$ 500.000,00, não irá garantir o futuro de sua empresa, pois sem pacientes e/ou sem credenciamentos garantidos o custo operacional mensal, conforme exposto nos itens acima, consumirá todo esse capital em muito pouco tempo, ocasionando, fatalmente, a quebra da sua empresa e a falência de todo o seu projeto.







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Dr. Max Artur Castelo Branco Zardini Júnior
Médico – CRMDF 21.962
Programador. Desenvolvedor do software EASYHOME Suite para gerenciamento de Home Care
Desenvolvedor do site prismacare.com.br
Sócio-proprietário da empresa PRISMA – Home Care em Brasília-DF.




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